Solidariedade à Marcelo Buzetto

[Nova Canudos (SP) Foto de Michel TORREKENS. Fonte: http://mtorrekens.ibelgique.com/reportages.htm ]

 

Em 1999, Marcelo Buzetto estava no acampamento Nova Canudos, em Porto Feliz (SP) quando vários manifestantes do MST foram presos após saquearem dois caminhões que transportavam alimentos. Buzetto defendeu-os diante dos abusos da delegacia local. Preso por 28 dias, foi indiciado e respondeu o processo em liberdade. Em 2006, foi condenado a seis anos e quatro meses de prisão em regime semi-aberto. No último 19 de janeiro foi encarcerado. Marcelo Buzetto não é foragido, comparecia todo mês ao fórum, em cumprimento à sentença judicial, e tem endereço fixo. Mesmo assim, está recluso em regime fechado. Este é mesmo um país de contrastes, próprios de um enredo kafkiano. Se a política parece emergir de uma ficção do gênero realismo mágico, a justiça fornece material abundante aos que desejem enveredar pela literatura do absurdo.

Conheci Marcelo Buzetto no início da década de 1990 na Fundação Santo André. Ele era um jovem estudante de Ciências Sociais. Não estávamos na mesma turma, mas os nossos professores foram os mesmos e vários estavam vinculados à Ensaio. Então, reinava a paz!. Depois, para tristeza e perplexidade de muitos, houve a ruptura e as acusações mútuas. Abriu-se um tempo de guerra cujas feridas não cicatrizaram. Nós, os que não éramos vinculados com “A” ou “B”, ficamos numa posição difícil. Ambos os lados queriam nos convencer de que estavam com a razão. Procurei não deixar que isto interferisse na admiração, carinho e respeito que, ainda hoje, mantenho por aqueles professores.

Antes que os diques se rompessem, e as divergências e até mesmo o ódio agissem como uma corrente incontrolável, Buzetto fazia parte do grupo de alunos que se destacava pelos vínculos com a Ensaio. Sempre com os livros da Ensaio embaixo dos braços, tinha aquela paixão própria dos noviços. Nós brincávamos com esta imagem do jovem que sempre tem alguma obra do mestre sob as axilas. Logo surgiu a expressão “marxista de sovaco”. Era apenas uma brincadeira, em geral gostávamos dele.

Um dia debatemos por cerca de hora e meia sobre temas sociológicos e políticos. Tudo bem, não fosse o fato de que estávamos num ônibus lotado, que vinha do centro paulistano até Santo André. O debate ficou acalorado e as pessoas nos olhavam como se fossemos de outro mundo. Retornavam de um dia de labuta e ainda tinham que suportar aquele papo chato e provavelmente incompreensível. Daquela época, ficou a imagem de um jovem cujo discurso beirava o sectarismo.

Nossas vidas seguiram rumos diferentes. Não sei quando ele começou a participar do MST. Mas quando o reencontrei na PUC/SP, era outro Marcelo. O jovem que conheci amadureceu, se tornou um respeitável militante social e também um professor de carreira acadêmica. Conversamos por algum tempo, o suficiente para dissipar aquela imagem do tempo da Fundação Santo André. Fiquei muito contente por revê-lo.

Agora, professor e doutorando, Marcelo Buzetto se encontra impedido de desempenhar suas funções. Na semana passada, ele deveria iniciar o ano letivo na Fundação Santo André, onde ministra as disciplinas de Política Internacional e Sociologia. Num ato de solidariedade, foi substituído pelo senador Suplicy. Entristece-me não poder ter comparecido a este e outros eventos que os companheiros organizam em solidariedade e pela libertação de Marcelo Buzetto.

Sinceramente, não acredito que minhas palavras neste espaço possam influir para a libertação de Marcelo Buzetto. Escrevo, portanto, sabedor dos limites do meu ato discursivo. Mas também com a certeza de que as palavras não são apenas discurso, mas a manifestação sincera e imperativa da minha consciência.